

O que colocamos no rosto precisa ser precioso. O que colocamos no rosto forma a primeira imagem que vemos de nós. Expressa nosso gosto e cuida da saúde de nossos olhos. Por que os óculos não estavam tão na moda há uns 10, 15 anos?
Essa é a pergunta que Gustavo e Gisela Assis já se faziam antes de criar a marca Lapima em 2017. O casal, apaixonado por design, por beleza e natureza, percorreram ateliês e até ferro velho procurando maquinário e parceiros para produzir óculos de luxo no Brasil. Era um mercado ainda pouco explorado e (muito) caro. Apesar dos desafios, a vontade de realizar um produto de design de qualidade venceu e hoje a Lapima é uma marcas de óculos brasileiros que concorre, lado a lado, com as gigantes do luxo.
“Os óculos são um artigo de luxo que mostra sua identidade. Fazer óculos bem-feito dá muito trabalho. Ficamos 3 horas polindo à mão, é como uma obra de arte, tem um valor agregado”, explica Gustavo Assis, que também é diretor criativo da marca.
O nome singelo – Lapima – veio de uma história familiar. O filho mais velho, hoje com 17 anos, falava “lá pima” ao invés de “lá em cima” . O casal achou gracioso, entendeu como um nome que funcionaria em várias línguas, e assim ficou.
Entre uma feira internacional e outra Gustavo conversou com a Fashion Label Brasil para contar a história da marca e a satisfação em levar o Brasil para o mundo.


A Lapima hoje é considerada uma marca brasileira de sucesso internacional . Vocês também são a primeira marca de óculos de luxo que consegue esta projeção em capitais globais da moda. Como vocês tem vivenciado este momento da marca?
Atualmente fazemos feiras em Nova York, Paris e Milão. Mostramos um Brasil que não é tão clichê e isso está sendo encantador para os clientes. Não deixa de ser pitoresco uma empresa brasileira produzir óculos de qualidade no mercado de luxo. Somos uma marca de luxo brasileira, que produz no Brasil para concorrer com marcas internacionais. Estamos ao lado de grandes marcas que têm 30 anos ou mais de história. Sentimos que valeu à pena mantermos nossas crenças iniciais, seguimos o que queríamos que fosse o Norte da marca.
Quais foram as crenças iniciais que vocês tinham no começo da marca e ainda mantém como meta?
As crenças iniciais que ainda se mantém para nós são as de respeitar a qualidade do produto e a qualidade da criação que queremos. Não nos corrompemos com o que é tendência no momento, focamos em criarmos a tendências, sermos trend-setters. E somos responsáveis com as entregas no prazo. Eu, Gisele e equipe acreditamos nisso. Não desviamos do nosso caminho e isso ao longo do tempo se mostrou muito importante.
Fica claro que vocês dão valor para o processo criativo. Como vocês estruturam isso? Tem um tempo específico, um lugar específico?
Sempre tem esse momento, que é o momento de pausa. Não importa o lugar. Ele pode começar sempre com um desenho livre, eu começo os sketches, e avalio o que está bonito, vou brincando com as formas. As formas se transformam em produto. E temos linhas icônicas, linhas mais fashion e linhas clássicas. Brincamos com desenho à mão livre dentro do tema que escolhemos. Quando nos inspiramos no mar, por exemplo, mergulhamos em tudo o que representa o mar, pensamos na agitação e na calmaria. E acabei levando isso para uma forma de máscaras de mergulho pesquisando máscaras vintage e contemporâneas. Isso tudo dentro de um prazo e temos quase 1 ano de desenvolvimento.
Neste momento do design, da inspiração, é um verdadeiro luxo a marca conseguir colocar isso dentro de um prazo factível. Vejo como grande desafio das marcas. Como conseguem organizar?
Desde o início temos nosso próprio atelier e sempre tive comigo uma equipe de prototipagem. Nunca tivemos esse prazo longo, sempre foi muito apertado porque fazemos três feiras por ano. Mas há poucas coleções conseguimos colocar isso numa planilha para trabalharmos com 1 ano e meio de antecedência. Esse tempo só para o produto.
Vocês lançam quantos modelos novos a cada coleção?
São 8 novos modelos a cada coleção. Somamos aos clássicos, aos best sellers, aos das coleções anteriores. Isso hoje, levando em conta as variações de cores, são mais de 400 SKUs.
Quando você fala de um Brasil que não é clichê, o que está no seu imaginário?
Penso na beleza arquitetônica, na beleza da nossa natureza, da nossa floresta, do nosso mar. A beleza das pessoas. Já falamos do Brasil central, da nossa savana. É muito bom que as pessoas conheçam Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, eu adoro o clichê brasileiro. Mas queremos também mostrar outras coisas, como a Serra do Mar, Brasil central. Já falamos sobre a vela da jangada do pescador cearense, a máscara de mergulho para mergulhar na Ilha Grande. Buscamos esses detalhes. É uma maneira de contar sobre coisas que as pessoas não conhecem.
Vocês viajam muito pelo Brasil?
Qual foi a sua formação?
Me formei em Administração de Empresas mas sempre sonhei em fazer Arquitetura. Ia na casa dos amigos arquitetos dos meus pais e ficava desenhando com as canetas deles. A criação da Lapima veio como a minha arquitetura. A administração de empresas é importante para respeitar a matemática, respeitar o financeiro, entender se a conta fecha. Nunca estudei Design. Adoro casas, adoro arquitetura. O lado criativo é desenvolvido ao longo da vida e do meio em que você vive.
Como foi então criar a marca?
Primeiro pensamos numa empresa que seria de design de produto. E o primeiro produto que pensamos foram os óculos de sol. Não encontramos empresa que produzisse óculos de qualidade aqui no Brasil. Quase desistimos. Contratamos um engenheiro que sugeriu que comprássemos o maquinário. Compramos uma máquina antiga num ferro velho de Campinas. Cortávamos lentes na França, partes do produto na Alemanha. Percebemos que íamos concorrer com o mercado externo porque foi ficando muito caro. Isso foi há sete anos e desde então a empresa foi evoluindo. Nosso primeiro show room apoiado pela Abest foi em 2017. O começo é difícil pra caramba. Em 2021 começamos a ganhar corpo e crescer, foi a nossa virada. Hoje exportamos óculos de sol pronto e os óculos de grau com lentes de demonstração.
Vocês costumam viajar bastante pelo Brasil? Entendo que vocês precisam ver o Brasil que vocês querem mostrar.
Sim, o tempo todo. Ultimamente Ceará, Goiás e no Rio de Janeiro para Parati, Angra dos Reis. Em São Paulo vamos para a Serra do Mar em Ubatuba. É o que faz sentido pra gente. O lugar para nós tem que ter um charme, tem que me dar paz.
Tendencialmente percebemos que usar óculos está na moda. É um objeto que tem atraído bastante os consumidores. O que vocês acham que está por trás desse comportamento?
Na verdade eu sempre me perguntei o contrário: por que os óculos não eram importantes se é a primeira coisa que você vê numa pessoa? Nunca entendi porque um artigo de saúde, que tem que ter qualidade, nunca era valorizado. Me perguntava isso porque na época dos meus avós usar óculos era um luxo, eram feitos de casco de tartaruga. Era um artigo que foi banalizado numa época. O que estamos fazendo agora é voltar ao que era antes. E também houve um movimento das grandes marcas para valorizar. Hoje percebemos que existe um mercado independente tomando esses lugares.
Por Juliana Lopes – jornalista de Moda e consultora. @j.u.lopes